segunda-feira, 24 de abril de 2017

Conto - os sons dos sinos

Esta é uma história simples, como uma fábula! Existe momentos de tristeza e existe momentos de alegria e cor!

Numa estrada para o monte, seguia a pé uma mulher velha, com o seu lenço na cabeça, o seu olhar semi-fechado, era por volta do meio dia, ainda não havia tocado os sinos.

Os sinos da aldeia tocavam certeiros às doze horas, para avisar a todos o aproximar da hora do almoço. 

O sol já ia alto, o calor pelo vale já era elevado, e lá ia a mulher velha pelo deserto! 

A aldeia lá ao longe, parecia uma miragem branca no meio dos campos verdes. A poucos metros da entrada, tocaram os sinos. Doze badaladas certeiras e que ecoavam por todo o vale. 

Chegou a mercearia, escura como um bréu, entrou em silêncio, na conversa animada que surgia por entre portas, com o dono e as vizinhas beatas. Conversavam sobre as casas que iam ficando vazias por toda a aldeia.

O merceeiro, homem robusto de bigode farto, dava conversa, afinal os clientes escasseavam todos os dias, e havia que alimentar a curiosidade das suas clientes com conversas ocas. 

A mulher velha, continuava em silêncio, escolhia os produtos que não conseguia fazer na sua horta caseira. No seu saco de pano colocou o 2kg de arroz, uma garrafa de óleo, uma de azeite. Levou algumas latas de atum. Sentia falta do atum e do peixe em geral. 

Estava a mais de 40 anos, naquele vale, não tinha nascido lá. Tinha nascido a beira mar, seu pai era pescador casado com a professora primária. 

Casamento improvável, pertenciam a classes diferentes, mas cheio de amor, tinha decidido que se um dia houvesse alguém seria somente por amor. 

Voltou a mercearia, agarrou alguns pacotes de massa em silêncio, faltava somente mais o tabaco e poderia sair daquela local. Nunca em quarenta anos, havia gostado daquela mercearia, somente suportado. 

Quando chegou ao vale, reinava o silêncio, por entre as colinas, o vento fazia eco. Numa das colinas, escondida, passava um riacho límpido, com um bosque ao seu redor. Foi onde acabou por parar para descansar, depois de mais de 15 horas na carrinha das mudanças. 

Vinha com o seu companheiro, um homem maduro, que havia passado pela sua terra, e ficado por três anos. Por entre serões filosóficos, fins de tarde a beira mar, matinés de cinemas e bailes, iam conhecendo, entre os sorrisos cúmplices, e debates de ideias calorosos, partilhavam as suas vivências. 

Passado dois anos, as juras de amor, haviam sido trocadas, assumidas em compromisso. Ficaram pela terra mais um ano, até voltarem as terras da família dele, após a morte do pai. Sua mãe havia já partido a muito, restava somente a caseira que assegurava o local a sua espera. 

Tinha já dado a volta a todo as estantes, já levava o que necessitava. Olhou para uma última, e viu o bloco de cartas! Sentiu a nostalgia de escrever uma carta! Agarrou num e levou também. 

A sua sede de voltar a escrever, surgiu naquela manhã, quando acordou sozinha na cama esticada com os seus lençóis brancos, com cheiro a baunilha. O companheiro adorava baunilha, a seu tempo aprendeu a gostar. A seu tempo aprendeu a gostar de muitas coisas que não imaginava, como a escrever. 

Já não escrevia a mais de cinco anos, com a sua partida, não conseguia sentir vontade de agarrar o caderno e escrever como antes. Tinha escrito para viver, como sede insaciada, sem capacidade de conseguir conter a necessidade de escrever, seu companheiro, seu amante, aprendeu também a compreender este amor partilhado que tinha a arte!

Muitas vezes partiam juntos para a capital, para apresentarem o último livro, atingindo recorde de vendas, passado algumas semanas, uma atrás de outras. 

Quando a ela surgiu a sete anos, não esperava que o roubasse tão rapidamente, silenciosa, foi-se instalando, quando já estavam sozinhos, os quatro filhos haviam partido, ficavam os cães e os gatos. E todos os outros animais da quinta.

Estavam sozinhos a mais de 15 anos, e aprenderam a gostar da solidão dos dois, quando os filhos os visitavam, ouviam particularmente os silêncios com que faziam o dia a dia, quando se encontravam no final do dia, apresentavam-se como apaixonados, eternos amantes, que organizavam todos os momentos para estarem juntos. 

Os filhos nem sempre percebiam, mas aprenderam a compreender. Naquela família todos acabavam por compreender os momentos de cada um, como habituaram a viver com os silêncios e as palavras acesas entre os vários debates que havia por casa. 

Os temas eram sempre variados e quentes, ao som da música clássica e jazz e blues, que tocava ao longo do dia, baixo e suavemente. Naquelas tardes, juntavam-se amigos dos filhos, e alguns vizinhos das quintas vizinhas e amigos que vinham da capital para os visitar. 

A escolha de se manterem isolados naquele vale, havia sido partilhada e decidida pelos dois, tinham reconstruido tudo a sua imagem, entre o clássico, o rústico e o moderno da altura. 

Colocou o saco com as suas compras para pagar, tirou cada um dos produtos para serem pagos. Só nesse momento falou, pediu o tabaco e a conta final. Levava tabaco para uma semana, não mais. Não era usual ser tão pouco tabaco. 

Entre as voltas que deu, havia passado mais uma hora, o sino voltou a tocar. Sentiu o apetite a tomar conta de si. Saiu da mercearia e seguiu para o café/casa de chá. 

Pertencia a mais excêntrica mulher do vale e arredores, havia transformado o café do pai, numa bela casa de chá, com exposições de vários artistas conhecidos, havia levado a arte a aldeia. 

Por perto havia criado a sua residência de artistas, num tempo em que ainda nem se falava do conceito. E tantos que haviam passado por lá, entre os serões passados na sua quinta e na residência, grande parte dos artistas levava material para colocar um pais a reflectir. 

E agora as duas estavam velhas e com olhar profundo. Nunca se havia casado, não tinha filhos, somente gatos que passavam por lá, nas suas visitas matinais. 

Entrou e sentou-se, pediu uma garrafa de água, e olhou para a ementa e pediu um prato intenso, necessita de ter forças para voltar para casa. 

Hoje tinha de voltar para casa, era quarta feira, era o dia dela sair para fazer a sua ronda, depois teria mais sete dias pela frente, totalmente seus e do seu amigo, o tempo. 

Perguntou pela dona, sua amiga, responderam-lhe que estava na residência, a servir como modelo de pintura, para um nu. O sorriso surgiu espontaneamente, era um costume seu, pedir um quadro seu, ao natural, tinha uma pequena galeria erótica, para chocar as beatas da aldeia. 

Divertia-se com isso, saber que chocava as mulheres por reprimirem o seu corpo. Nesse momento sabia que já se iria despedir dela. Somente a imagem dela nua perante o pintor, lhe dava o prazer da amizade que haviam construído ao longo dos 35 anos. 

Ficou a saborear o momento, chegou o prato, comeu. Quando acabou, levantou e sentou-se na sala dos livros, era uma velha biblioteca, onde estavam as primeiras edições de todos os seus livros. Havia deixado cada exemplar assinado com a dedicatória especial, eram mais de 60 livros. Tantos como cada um dos momentos altos e baixos da sua vida. 

Olhou para eles com ternura, havia sete anos que não escrevia. Olhou para eles, sorriu. Tirou o bloco de cartas, e começou a escrever. Ficou ali mais de 3 horas a escrever, como se não houvesse amanha.  
Acabou por volta das 15 horas, e pouco depois levantou-se pagou o almoço e a sobremesa. Saiu e com calma voltou para o caminho que levava ao riacho. 

Foi com calma, saboreando cada momento. Eram 16 horas, quando o sino voltou a tocar, as outras horas haviam passado sem que notasse, estava a escrever cartas. Hoje acordava com essa vontade. 

Tinha chegado ao riacho, após três quilómetros, e sentou-se a beira da lagoa, o tempo havia secado as lágrimas, somente olhava a água a passar. Eram já 17 horas, quando o sino voltou a tocar e a ecoar por todo o vale. 

Decidiu voltar para casa, calmamente, tocando em cada árvore, velho ritual que partilhava com o companheiro quando iam passear e namorar ao longo dos anos. Ritual tão antigo como o tempo, que havia sido parado após a sua partida. 

As seis horas tocou o sino, e ela metia a chave na porta para entrar. Já não havia os cães e os gatos, somente o silêncio que habitava a casa. 

Colocou o saco na banca. Dirigiu-se para o escritório, colocou as cartas em cima da mesa redonda, onde se colocava as últimas leituras.

Olhou para a casa, sentou-se e respirou fundo. Ainda havia claridade na casa, ainda era dia.

Foi buscar o copo já preparado, agarrou na caixa com o pó do costume, colocou várias colheres, e mexeu o suficiente para ficar diluído. 

Agarrou o copo e dirigiu-se para o escritório, sentou-se no seu recanto da leitura, olhou pela janela, e viu ao fundo o riacho a passar, sorriu. 

Lembrou-se dele, fazia cinco anos que havia partido, e o silêncio havia surgido naquela casa, ao longo dos últimos anos, os parceiros de todas as horas, haviam partido, já não restava ninguém. 

A um mês surgia a noticia, o prognóstico era reservado, o tempo era curto, e a degradação esperada elevada. Quando se levantou naquela manhã sabia o que queria fazer!

Fez tudo o que era esperado, afinal às quartas feiras, saia sempre para fazer as compras e lidar com as pessoas, saindo do isolamento, em que vivia nos outros dias.

Quando acabou por tomar, deitou-se no seu recanto, por entre as almofadas de todas as cores, lembrando-se que foi assim que o viu pela primeira vez, no seu recanto de leitura no seu sotão, com uma janela enorme para a praia. Viu a passar durante as primeiras semanas, sozinho, sempre com um livro na mão e uma toalha na outra. 

Quando arranjou coragem, procurou por uma toalha e levou um dos seus últimos livros. Já escrevia e publicava, mas não se apresentava perante ninguém. Os seus pais eram os únicos que sabiam quem ela era. Quando fora a praia, nesse dia não fora ele. Saiu da praia sentindo-se desapontada e infeliz, completamente embrenhada nos seus pensamentos, quando se choca com alguém nas ruas da pequena feira que havia para festejar a santa padroeira das causas impossíveis. 

Quando se olharam, nunca mais deixaram de se olhar. 

No seu último suspiro, lembrou do seu primeiro beijo, após uma caminhada num dia nubloso, que originou uma chuvada de temporal. Quando se resguardaram surgiu o beijo, a caricia, o desejo. 

Em posição fetal, lembrou-se dessa primeira vez que acabaram por dormir juntos, enquanto chovia lá fora, e a posição que ocuparam pela primeira vez em que foram amantes. 


Quando foi encontrada, estava ao lado o que ele lhe havia escrito.

Espero por ti! 
Não te demores! 
Desejos mil! 
Fantasias tantas!
Beijos ardentes!
Não te demores!
Espero por ti!
Aqui na eternidade!
Hoje e sempre!

a data do bilhete era a data da última vez que ela havia saído à rua.


E ao longe o som do sino a tocar e a dar as 19 horas.


domingo, 23 de abril de 2017

Amor e Livros

Recentemente saiu numa página da internet um pequeno concurso, para explicar quem merecia receber o Nobel do melhor leitor!

Fui pensando em responder, todas as minhas qualidades enquanto leitora e merecedora de um Nobel, mas fui vendo que honestamente não tenho qualquer razão para merecer tal distinção. Pois bem... acho que será melhor explicar. 

A minha relação com os livros é deverás complicada como com qualquer humano, alias trato cada livro como se fosse um amigo, um companheiro de viagem, um amante que sussurra palavras quentes de um qualquer momento de prazer, como o olhar o por do sol, com o livro no meu regaço!

Não os respeito, já que os levo para qualquer lado, e nunca sou o fiel o suficiente, tendo em conta que levo 5 ou 6 de cada vez! Seja o romance que espreita nas horas vagas, seja o livro técnico da área de intervenção para relembrar um último pormenor, seja até aquele livro de ficção cientifica, escondido na mala a espera da luz para se mostrar, seja livro que recomendo para reflexão do seu bem estar, seja a poesia bela que saltita por momentos de 2 minutos para recitar um poema. Seja a banda desenhada, que olha para mim com o sorriso estampado na capa a apanhar o meu lado infantil que não quer crescer! 

Se eu mereço o Nobel de melhor leitora, nem de perto! Quando chego a casa, vão comigo para a cabeceira da cama, e amontoam-se com os outros 7 que estão por lá, sobre as mais diferentes temáticas! E quando os deixo a descansar de uma semana louca, simplesmente agarro outros dois ou três e levo para uma caminhada, com o peso da leitura atrás, acreditando piamente que os vou ler a todos! Tiro um após uma paragem, olho-o nos olhos e abro a capa, sigo para a leitura, escapando como por artes mágicas da realidade deste momento, do aqui e do agora, e partindo para uma realidade alternativa, que me leva a pensar, a reflectir sobre o mundo, a vida, colocando-me no meio de uma batalha, e me permite o voar e acreditar no impossível. 

E quando chego ao final da caminhada, paro para comer alguma coisa e lá ficam eles um ou outro em cima da mesa e outro colocado na mochila, aguardado com o bloco dos desenhos, falando entre si, sobre as minhas preferências. E de tempo a tempo surgem os acidentes, um copo de água que é derrubado e banha todas as páginas dos vários livros, e são as memórias das vivências que fazemos juntos. 

E as bordas dos livros técnicos, escritas com reflexões e poemas forçados de uma tentativa de olhar o mundo por outra perspectiva, gerindo a emoção com que me prendem naquele momento de pura intimidade. 

As gargalhadas que dou, as lágrimas que teimam em cair quando a história ainda vai a meio, o choque de não conseguir processar o grotesco que leio e que se depara perante mim! A sensação de posse que alguns deles tem sobre a minha alma, a sensação da lentificação e aceleração do tempo, esse companheiro de viagem! A vontade de alguns dias em chegar a casa e simplesmente ficar no canto ao lado da luz e saber que amanha não há compromissos e ler, ler sem parar, como se não houvesse um amanha. 

Não o mereço! Os livros são os companheiros de todas as horas, mesmo quando estou acompanhada, o desejo secreto de tirar um e simplesmente ler, sem ter de ligar a qualquer uma conversa que decorre ali ao meu lado! A solidão da leitura e o prazer de viverem comigo todas as horas da minha vida, até quando agarro a mochila e parto pelas estradas do mundo. 

Nunca vou Só! Comigo os meus livros conhecem o mundo, outras culturas, outros realidades, e por entre as suas páginas estão todas as lembranças da nossa relação e dos momentos em nós partilhamos com os outros. 

Por isso não mereço o Nobel! Porque para mim os livros não são um objecto inanimado, são uma face de alguém que num dado momento decidiu partilhar a sua alma com o universo, e eu escolhi receber essa partilha, enquadrando ao meu dia a dia frenético, com um sorriso e uma esperança de que num futuro longínquo, com os meus cabelos brancos possa sentar-se ao sol, bebendo um chá e lendo com calma e tempo todos os livros que me faltam para eu crescer! Por isso não o mereço! 

Feliz Dia do Livro!








sábado, 15 de abril de 2017

Mal de Pierres e Erotomania!

Filme da Páscoa - Mal de Pierres!

Como falar de uma perturbação mental, e paralelamente manter-se um amor platónico para dar sentido a vida?

A erotomania é uma perturbação ligada às psicoses, nomeadamente uma perturbação delirante!

A forma como é construído a história, compreendemos que é negado a possibilidade de viver uma sexualidade com tranquilidade e espontaneidade, para lidar com esta dificuldade, força-se a casar-se! 

O amor que desperta, ao sentir-se escolhida por alguém inacessível, como objecto do seu amor, facilita a sua compreensão do mundo, para lidar com a dor de não se sentir suficientemente amada!

O encanto deste filme, é a prova de amor que o marido a determinada altura faz, que dura anos! 

E isso faz todo o sentido, para se sentir alguma normalidade no dia a dia!

Ter alguém que ama para além de todas as dificuldades...

Nem sempre conseguimos encontrar alguém assim!

...

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A normalidade dos dias que passam!

Nos dias que correm a normalidade e rotina dos dias que passam, enche-se por todos os lados!
 Paterson

Vê-se nos filmes como Paterson, onde a riqueza da rotina de um artista que escreve poemas, permite pensar e sonhar com as pessoas que somente criam pelo prazer dúbio de criar!

A rotina do casal, que todos os dias faz a mesma coisa, e mesmo assim todos os dias são diferentes pelos pormenores que surgem no dia a dia!

E a forma calma e relaxante como é vivido um drama, como a destruição do livro de poemas pelo cão da casa!

A vivência da esposa que acredita continuadamente no talento do companheiro, que sonha vezes e vezes sem conta no par de gémeos que poderão ter. A beleza das pequenas coisas, encontra-se no filme, como também pontua na auto-descoberta de nós próprios. 

Será que somos capazes de amar o pormenor?

Vive-lo como sendo algo mágico e profundo? Sabendo que assim pertencemos a alguém? O pormenor do filme, é que mesmo que as escolhas da esposa, sejam ao lado, nem sempre organizando em conjunto com o marido, o que sentem um pelo outro permite aprender a viver, com as invenções sistemáticas que surgem desde a cozinha, decoração e tudo o resto!

Talvez o amor na sua plenitude seja isso! O viver o dia como se houvesse somente este momento, o que estamos a viver, a ler e nada mais!

Poético, assustador, sublime? 

Tudo e nada, somente a essência deste presente em que eu escrevo e tu lês!


Demain e reflexões

Os filmes retratam em muito as várias realidades que existem! 
O orgulho que sentem pela presença constante dos pais é um dos momentos profundos e relevantes no filme. 


A vida encontra-se pelos filmes que assistimos!
O que leva a um pai ou a uma mãe deixar um filho para trás?
E voltar passado anos como se nada se passasse?

Como uma criança aprende a viver com isso? Um dia de cada vez!

E depois quando um dos pais desaparece? Como se vive com a saudade de um pai/mãe que morreu?

Vivendo o presente como se não houvesse amanha!

Como se diz a um filho que vamos morrer?

O dia a dia das reflexões sobre dilemas existenciais!

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Porque Razão o mundo inventou relatórios???

Porque razão o mundo inventou relatórios??

Qual a necessidade de algo tão complexo? e tanta palavra? para quê?

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uma reflexão a ser feita nos próximos tempos!

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segunda-feira, 10 de abril de 2017

Viva la Libertà e passione

Viva la liberta - Roberto Ando - Trailer from Distrib Films US on Vimeo.


A vida que encontramos pelos recantos de um mundo que se perde por falta de norte!

A Palavra que nos falta no dia a dia dos políticos, remete-se para a falta de paixão, que existe, que nos eleva ao lugar dos deuses. 

Na viagem a Itália, vi a grandeza com que as cidades foram construídas, validando a possibilidade de olharmos para o céu, ambicionando o Olimpo. 

Na minha pura interpretação, creio que os edifícios enormes, talvez fossem também uma interpretação da possibilidade de ambicionarmos o impossível, e conquistando passo a passo para o tornar real. 

A paixão que defendemos, encontra-se em oposição ao mundano conformismo que vivemos! Sendo mais fácil a manutenção da nossa permanência num sofá ou numa cadeira de um escritório improvisado, para manter a pseudo intelectualidade!

A falta de ligação ao resto do mundo, promove as falhas na empatia, e por sua vez desenvolve quebras nas ligações com o mundo! Dificuldade a capacidade de calçarmos os sapatos do outro!

A politica como tudo o resto necessita da paixão para viver e saborear a qualidade de vida que poder ser maior. 

Maior que os intentos, 
que as intenções, 
que uma percepção de algo que acontece e não se transforma!

Esta falta de paixão pela vida, por tudo o que deixa de existir assim que dá o primeiro suspiro é nada mais que a ausência de uma vida que poderia ser maior, mas que fica somente pela intenção. 


E a palavra que se ausenta da tribuna de um desfile de memórias, fica-se pela falta de paixão, que vemos nestes que nos poderiam dar o exemplo, dar a possibilidade de sermos maiores!

Afinal continua a lenga lenga, o Olimpo é somente para os escolhidos!


...

sábado, 8 de abril de 2017

Cena 11 - Mercado

Entra no mercado da Ribeira, vê as bancas!

Tenta ignorar a inquietação que sente, aquele momento foi muito forte! Diferente do que alguma vez sentiu!  

Olha para as bancas e começa a procurar pelos legumes! Tentando criar uma lista de cabeça do que necessita para levar para casa! 

Passa por três bancas, e para na banca em que um senhor de boina dos seus 70 anos, escolhe alguns dióspiros para um saco transparente.

O aspecto é delicioso, carnudos e maduros. O senhor olha-o e sorri, e começa a falar:

- Já percebi que é cá dos meus!

- Desculpe?

- Gosta da fruta madura! Olha para a fruta com paixão!

- Paixão?

- Sim! O seu rosto está focado no vermelho deste dióspiro, não o deixa de olhar!

- Sim! Faz-me lembrar um episódio da minha vida!

- A sério? Hum, pela sua cara, um velho amor?

Silêncio!

Continua: - Creio que acertei! E pelos vistos dos grandes e fortes!

Silêncio!

Continua: - Faz-me lembrar a minha Maria! 

Sorriso cúmplice

Continua: - Uma grande história de amor, tanto no tempo como na intensidade!

- A sério? Grande como?

Continua: - Durou 50 anos! Ela morreu a um ano! Coitadinha! Mas morreu feliz! Fizemos tudo o que era para fazer! E dizemos tudo o que era importante dizer, até as parvoíces! 

- Como consegue viver sem ela?

Continua: - Vivendo, aprendendo, sorrindo, amando os nossos filhos, os netos! Indo aos vários locais, onde fomos felizes! Rindo!

Silêncio! Olha atentamente!

Continua: - Sabe, quando amamos realmente é quando somos livres, amamos o outro por nos completar e não por ser a nossa metade! Quando se ama de verdade, conseguimos fazer tudo pelo prazer de o fazer! Até aprender uma nova língua. Sabe depois da Maria partir, eu decidi aprender danças de salão e espanhol correctamente! 

Sorri silenciosamente!

Continua: - Para ajudar a suportar a ausência, aprender algo ajuda a passar! Já começou a aprender algo?

Admirado, responde - A pouco passei por uma porta azul, Piano Aquário, ouvi uma senhora a tocar, e senti uma vontade antiga de aprender a tocar piano!

- Piano Aquário? Ah viu a Vera, ela é professora de Piano! Velha amiga! Ela veio para Portugal a mais de 30 anos com um papagaio nos ombros. É professora no Conservatório de Lisboa. Se quiser eu levo-o lá! Ela dá aulas as vezes ao sábado. É uma boa oportunidade de a conhecer!

- Quer dizer...

- O destino quis que nos encontrássemos, por algo motivo! Se calhar é para você descobrir o seu dom, e lidar com a sua dor! Tocar piano ajuda a libertar a alma. A minha Maria tocava maravilhosamente, mas eu não sei tocar nada!

Sorri!

- Vamos então despachar! Que temos de entregar a mensagem e criar o conhecimento! A história escreve-se por estes encontros!

- Não creio que venha a tocar, não tenho tempo nem vida! 

- Se tem tempo para sofrer e chorar, tem tempo para aprender e treinar! Se sentiu algo forte, é porque foi um chamamento para tocar! E eu vou entrega-lo lá!

- Deixe estar, não se preocupe!

Agarra suavemente o braço e fala: - Não deixo! Quando a magia da vida acontece nos encontros fortuitos, deixar fugir a oportunidade pelo medo de tentarmos é deixarmos a felicidade fugir, como areia que foge pelos dedos da mão. é como Shakespeare dizia na personagem de Lúcio - Não passam de traidoras nossas dúvidas, que nos privam, por vezes do que fora nosso, se não tivessemos receio de tenta-lo. Vamos lá então, vou pagar e seguimos já para o Piano Aquário. 

Sorri sem conseguir falar, o momento é solene para dizer alguma coisa! 





Cena 10 - Piano & Caminho

Desce a Rua, caminhando vigorosamente em direcção à Pastelaria do Bairro, com uma banca cheia de bolos frescos e sorridentes ao apetite voraz. 

Come uma torrada e um chá preto! Segue-se um café!

Paga e sai para a rua. Desce até a Sé de Lisboa! Ouve os turistas por todo o lado! Não o assusta estar em silêncio! Somente hoje fugiu pela primeira vez de casa! 

O dia promete um sol radiante! Caminha vigorosamente até ao Cais de Sodré! São 10h00! Chega a Padaria Portuguesa, vê as pessoas que caminham pela Rua, com roupas leves e vontade de explorar a cidade! 

Ele passa em silêncio, caminhando. Ao longe vê dois cães, um branco e um preto e branco, deitados ao sol! Ouve o som de um piano, seguro e confiante! 

O som sai de uma porta azul - Piano Aquário, ele vai aproximando-se estranha aquele som ali! Nunca ouviu nenhum som cristalino como aquele! Chega a porta, e espreita lá dentro vê uma mulher de cabelo vermelho forte, majestosa e imponente. 

O cão branco e preto senta-se olhando-o! e a melodia continua sem parar! 

Uma força muito grande impele para entrar naquele espaço e perguntar algo. Ele não sabe o quê! O seu lado racional exige que volte ao caminho e siga para o mercado!

O tempo que fica ali, não passa despercebido a esta mulher! Ela olha-o, perscruta-o com o olhar e sorri!

Ele assusta-se e segue para o Mercado. 





Cena 9

Banho

O despertador toca ao som da smooth fm! A música de uma manhã de Sábado, calma como o dia que se avizinha! 

A janela deixa a claridade entrar ligeiramente. Ele respira fundo! Fecha os olhos! E respira novamente!

Levanta-se da cama, desliga a rádio, e liga o mp3! Começa a tocar Eunaudi! 

Hoje o humor está como a música.

Sai do quarto, e segue para a cozinha, ao fundo do corredor, com a luz a entrar pela varanda. Liga o esquentador, e segue para o banho!

A música cada vez mais intensa, toca ao fundo! Os olhos fecham-se, preparando-se para fugir para outras memórias! 

Abre os olhos, hoje necessita de manter-se aqui e desligar do passado! Fecha a torneira! Agarra a toalha, limpa os olhos, o olhar fixo no chão. 

Respira fundo e sai da Casa de Banho, deixando a toalha a cair no chão!


A rapidez do momento, liberta uma energia, a acção sobre o momento, Entra no quarto, veste uns jeans, uma tshirt lisa verde, calça os sapatos vela. 

Na cozinha agarra o saco do mercado! E sai rapidamente de casa!

Nunca em dois anos teve tanta rapidez em sair de casa!